Artigo

A UFBA se fortalece com dois novos institutos

[A UFBA se fortalece com dois novos institutos]
21 de Junho de 2021 às 12:12 Por: Divulgação Por: Penildon Silva Filho*

Apesar do corte orçamentário que atingiu todas as universidades federais, levando o orçamento de custeio a estar nos mesmos valores nominais de 2011 e em valores reais de 2005, e das imensas dificuldades para manter as atividades de ensino, pesquisa e extensão, nossas instituições continuam dando exemplo de resiliência, de crescimento, excelência acadêmica e de compromisso social. Na última sexta-feira, o Conselho Universitário da Universidade Federal da Bahia (UFBA) teve a decisão histórica de criação de dois novos institutos, demonstrando seu compromisso com a sociedade brasileira e com a superação dos limites e atrasos para o desenvolvimento nacional. Os novos Instituto de Computação e Instituto Multidisciplinar de Reabilitação e Saúde marcam um grande avanço da UFBA e do Estado da Bahia no caminho de construção de uma Sociedade do Conhecimento e da Cultura e comprometida com a Saúde Pública.

Instituições de projeto de longo prazo, que são projetos de Estado e de Nação, e não apenas projetos de curto prazo de governos eventuais, não podem se amedrontar com períodos mais difíceis para sua continuidade, crescimento e compromisso social. As universidades federais e estaduais (as públicas de forma geral) são um exemplo dessas instituições de projetos de longo prazo, talvez o melhor existente no mundo. Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, ao estarem no Movimento dos Pioneiros da Escola Nova (1932), no projeto da Universidade do Distrito Federal de 1935 (ainda no Rio de Janeiro) e no projeto da Universidade de Brasília de 1961, apontaram o que hoje se configurou como o projeto de uma universidade moderna no Brasil, uma universidade que não é apenas de ensino, mas que prioriza fortemente a pesquisa científica, cultural e humanística e a extensão universitária. Esse modelo de “Universidade de Pesquisa”, com o exemplo impulsionador da Universidade de Humboldt na Alemanha, foi conformado e aperfeiçoado pelos princípios da Reforma de Córdoba na Argentina. 

A Universidade Humboldt de Berlim é a mais antiga universidade daquela cidade, fundada em 1810 como Universidade de Berlim pelo linguista e educador liberal prussiano Wilhelm von Humboldt, cujo modelo institucional influenciou fortemente outras universidades no mundo e foi responsável pelo rápido e imenso desenvolvimento econômico, social e cultural da Alemanha no século XIX. A Reforma da Universidade de Córdoda em 1918 se tornou uma importante referência para definir a identidade da universidade latino-americana baseada nos princípios de autonomia universitária, gestão democrática, gratuidade do ensino superior e compromisso social. Hoje, a construção de uma universidade pública, democratizada e comprometida com um projeto de nação, guarda sua inspiração básica nessas conquistas históricas. 

Dando testemunho de seu projeto de longo prazo de universidade pública, a UFBA criou dois novos institutos, profundamente identificados com demandas e conhecimentos de ponta e prioritários na Saúde Pública e na Tecnologia da Informação, da computação e da inteligência artificial, mostrando que a Universidade continua viva, avançando e aprimorando sua pesquisa e extensão ao lado do ensino, que não parou nesse momento de pandemia.

Segundo o documento de criação dos novos institutos da UFBA podemos verificar a atualidade e o imenso potencial de desenvolvimento para a sociedade baiana na Tecnologia e na Saúde Pública, num momento de revolução tecnológica da revolução 4.0 e de necessidade de avanços no cuidado da Saúde:

“A Ciência da Computação é uma área do conhecimento à parte, transversal às demais ciências e setores, sendo cada vez mais imprescindível para catalisar os diversos avanços científicos, tecnológicos, econômicos, sociais, políticos. Sua transversalidade, expressa em subáreas interdisciplinares importantes, e.g., o direito digital, informática médica, ciência de dados, computação quântica, além de outras, é fortemente requerida. Neste sentido, profissionais com formação e base em computação e tecnologias digitais são uma demanda premente da sociedade moderna. Estima-se que 62% dos empregos atuais nas áreas STEM (engenharias, tecnologias, ciências e matemáticas) sejam em computação; ainda, cerca de 27% das vagas ofertadas não são preenchidas por falta de pessoal qualificado; tal demanda intensificou-se mais ainda com o quadro de aceleração do uso das tecnologias digitais desencadeado pela pandemia em 2020.

[...]

O Departamento de Ciências da Computação (DCC), que agora se torna o Instituto de Computação, oferece, desde 1969, um dos primeiros cursos de graduação em Ciência da Computação do Brasil, e festeja a formação de mais de 1.100 profissionais pela UFBA, em conjunto com mais dois outros cursos, o de Sistemas de Informação e Licenciatura em Computação; todos eles muito bem qualificados pelos órgãos competentes, com notas 4 e 5. Para além da responsabilidade sobre esses três cursos, o DCC apoia a formação direta de estudantes em diversos outros cursos das diversas áreas do conhecimento, cuja base em computação é cada vez mais requerida, a exemplo da Engenharia de Computação. Somente no planejamento de 2021.1, foram mais ou menos 5.000 vagas ofertadas em mais de 100 turmas de graduação. O DCC é responsável por dois programas completos de pós-graduação, nas áreas de Ciência da Computação e Mecatrônica, tendo formado cerca de 380 mestres e doutores. [...]”

Ainda sobre o perfil do nascente Instituto Muldisciplinar de Reabilitação e Saúde, temos uma justificativa muito esclarecedora nesse mesmo documento:

“O Instituto de Ciências da Saúde iniciou a partir de 1999, o oferecimento do Curso de Graduação em Fonoaudiologia, [...] o Projeto REUNI propiciou, ainda, a criação de duas novas propostas curriculares, concebidas, organizadas e acolhidas pelo ICS: o Curso de Graduação em Biotecnologia – iniciado em 2009 – e o Curso de Graduação em Fisioterapia – iniciado em 2010. Agora, os cursos de Fonoaudiologia e Fisioterapia, pelas atividades que seus docentes já realizam na Graduação e na Pós-Graduação, assim como na forte extensão em atenção à saúde, nas duas clínicas escolas que já existem, têm condições de criar um instituto autônomo.

A inserção da Fonoaudiologia no campo de saúde pública se dá através de um trabalho de ressignificação da concepção de linguagem, de corpo e de saúde/doença, mediante a leitura do funcionamento institucional, da compreensão das demandas da população e do planejamento das ações específicas fonoaudiológicas e coletivas em sintonia com os princípios dos SUS e os paradigmas da Saúde Coletiva. A formação de profissionais fisioterapeutas tem se defrontado com novos desafios, como a produção de conhecimentos adequados às necessidades de uma população em constante transformação social, cultural e comportamental. Estas transformações são decorrentes de uma mudança no perfil epidemiológico de várias doenças, do envelhecimento populacional e do aumento das desigualdades sociais. Atualmente a formação do fisioterapeuta passa por uma alteração de paradigma que sai de um modelo centrado na abordagem individual e curativa, para outro que objetiva uma abordagem coletiva e integralizada com ênfase em ações de promoção e proteção à saúde para beneficiar o maior número de pessoas quanto às necessidades reais de saúde.

No CEDAF (Clínica Centro Docente Assistencial de em Fonoaudiologia) e na CEF (Clínica Escola de Fisioterapia), serviços abertos à comunidade, são realizados atendimentos nas diversas especialidades, o que viabiliza em paralelo a realização de importantes projetos de pesquisa e de extensão universitária.”

Em ato contínuo à criação do Instituto Muldisciplinar de Reabilitação e Saúde, deve se dar uma integração entre as clínicas de Fonoaudiologia e Fisioterapia, e ainda agregar os professores e estudantes do nascente curso de Terapia Ocupacional (atualmente lotado na Faculdade de Medicina da UFBA), numa atuação clínica, de ensino e de extensão universitária interdisciplinar e constituindo um centro de reabilitação humana para a população baiana envolvendo todas as áreas, que depois poderá crescer a partir de parcerias com o setor público da Saúde das prefeituras e governo do Estado. É importante registrar que o novo curso de Terapia ocupacional inicia suas aulas em agosto na UFBA e é o único em todo o Estado da Bahia, mais um exemplo de nosso compromisso com a Saúde da população.

A UFBA e suas unidades acadêmicas assim apresentam uma expansão e compromisso social com excelência acadêmica que servem de inspiração num momento em que muitos atacam a Ciência, a Cultura, as artes e as Universidades. As Universidades têm uma função civilizatória fundamental no mundo, desde seu desenvolvimento em diferentes partes do globo. As dificuldades orçamentárias continuam presentes e ainda é um desafio defender e manter as instituições universitárias públicas, mas essas instituições não abrem mão de sua missão, de sua natureza, de seu funcionamento cada vez mais integrado com o desenvolvimento social, econômico e ambiental no Brasil e no mundo.

*Professor da UFBA e doutor em educação

Os comentários não representam a opinião do portal; a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Compartilhar